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Missão médica no Piauí desafia dificuldades do sertão

Texto: Gislene Bastos / Fotos: Andrei Polessi |

Levar serviços de saúde para os moradores do sertão do Piauí acaba sendo um exercício de constante adaptação. O semi-árido nordestino tem o cenário muito diferente e não oferece as facilidades do meio urbano de onde vem grande parte dos voluntários. Também há o desafio de prestar atendimento a cada um ou dois dias num lugar diferente. É necessário deslocar equipe, aparelhos para realização de exames e cirurgias, óculos para doação e medicamentos que serão prescritos para os tratamentos indicados.

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Todos os dias profissionais especializados em mais de dez especialidades da área da saúde também vão a campo para consultar e orientar os moradores. Nessa região, pessoas com dificuldade de locomoção não saem de casa.

Uma das idealizadoras, e coordenadora médica das atividades, a doutora Karina Oliani, esteve na região em setembro e identificou os casos que exigiriam esse tipo de atendimento. Caso da dona Maria Francisca, 77 anos, de Acauã. Com base na consulta prévia, a fisioterapeuta Marlise Carvalho trouxe de São Paulo o andador que melhor se adapta às condições de vida da sertaneja.

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”A viagem precursora possibilita atender necessidades específicas. Além de ser decisiva para definir as especialidades médicas que não poderiam faltar numa missão como essa. O que estamos fazendo hoje tem êxito muito por causa deste levantamento preliminar”, enfatiza Karina Oliani.

Em todas as etapas o envolvimento coletivo tornou-se uma marca desta equipe. Assim que chegam ao local, os voluntários se encarregam de cumprir as tarefas mais urgentes: descarga do material, identificação e organização dos consultórios e farmácia, estabelecimento do ponto de acolhimento e triagem dos pacientes. À medida que os dias passam, o trabalho ganha naturalidade.

“É uma equipe muito grande e o desafio é manter todos alinhados e envolvidos com a comunidade e a equipe local que nos auxilia nos atendimentos. Você planeja, mas chega e é totalmente diferente. Falta sala, mesa, cadeira. São quatro lugares diferentes. E esse envolvimento coletivo é que torna tudo mais fácil”, reforça a empresária Mariana Serra, coordenadora logística da Missão Médica VV no sertão do Piauí, junto com o biomédico Victor Bigoli.

A instalação da farmácia exige conhecimento técnico e muita concentração. A farmacêutica Fernanda Franciosi cumpre essa tarefa todas as manhãs com a ajuda da estudante de enfermagem, Pâmela Knopf. São mais de 100 tipos de medicamentos. Para facilitar a entrega Fernanda nos conta que a colocação nas mesas é feita conforme a classe. “Antibiótico com antibiótico, analgésicos juntos, vitaminas com vitaminas… Também deixamos mais a vista aqueles com mais freqüência de prescrição”. No fim da tarde elas aproveitam a separação e guardar tudo em caixas para no dia seguinte montar uma nova farmácia em outro lugar.

As comunidades formadas por famílias remanescentes de quilombos tem realidades diferentes entre si. O dentista Thiago Toyama comprova isso ao comparar o nível do comprometimento dentário dos pacientes. “Nos quilombos mais distantes, como a Serra do Inácio, em Betânia do Piauí, onde grande parte dos moradores nunca tinha sentado em uma cadeira de dentista, os casos eram mais complexos, mas com menor degradação do dente. Já numa comunidade mais urbana, como a população de Acauã, que tem até dentista na cidade, o nível de degradação dentária é mais alto. Uma das explicações é a alimentação, mais a base de verduras, frutas e raízes que promovem uma limpeza involuntária dos dentes lá no meio rural. Já as crianças da cidade tem mais acesso a doces, bolachas e produtos industrializados, não escovam os dentes e a cárie se multiplica com facilidade.”

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A diferenciação também foi observada pela pediatra Karina Carneiro Branco, que comparou a saúde das crianças no sertão à encontrada na periferia de cidades grandes. “Casos aqui são parecidos, mas agravados pela falta de acompanhamento médico.” Um dos momentos mais comoventes até agora ocorreu em Batemaré, município de Paulistana. Juan, um menino de seis anos, chegou ao consultório pesando apenas 11 Kg, o peso de uma criança de um ano de idade. Estava com diarréia, vômito há uma semana, febre há dois dias e recusando todo alimento oferecido. Na base mesmo recebeu soro e foi levado pela equipe até o hospital no centro da cidade para internação de urgência. “A desidratação grave compromete os rins e pode levar a morte. Para o Juan, fizemos a diferença.”

Quadros de desnutrição e desidratação voltaram a ser comuns entre as famílias de sertanejos. O sertão registra a pior seca dos últimos cinco anos. Em alguns locais os moradores se obrigam a consumir a água de açudes sem tratamento, um grande fator de contaminação conforme nos explica o médico infectologista e professor universitário Alexandre Barbosa. “A ingestão dessa água leva a desidratação e a quadros graves de desnutrição. Há muita falta de informação básica no sertão. Aqui em Batemaré a comunidade tem um aparelho dessalinizador para produzir água potável que está há um ano e meio sem uso! Porque a população não consegue entender a real necessidade!”

A Missão Médica VV no sertão do Piauí tem a participação de 48 voluntários, sendo mais de 10 especialistas da área da saúde.

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A ação é uma parceria entre Dharma Project e Volunteer Vacations, com a coordenação médica da Dra Karina Oliani, e logística de Mariana Serra e Victor Bigoli.

As atividades seguem até nove de novembro com o patrocínio da Avon, Roche, Puma, Gente de Montanha, Dharma Project e Mitsubishi com o apoio de Pitaya Filmes, Feito por um Sertanejo, Missão Mais, Íris Piauí, Instituto Água Viva e Projeto Canudos.


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Elque Silva

Elque Silva

Apaixonada pelas coisas boas da vida: montanhas, trilhas, aventuras, viagens e amigos. Trabalha na área de Administração. Me siga no Twitter: @elquetrekking


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