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Acima dos 5000 metros

Estou lendo “No Ar Rarefeito”, um livro do Jon Krakauer que fala sobre um ano trágico no Everest, 1996. Uma série de mortes aconteceram na montanha naquele ano. O livro me fez relembrar os momentos em alta montanha que passamos na Cordilheira Real, na Bolíva, em 2009. Mais exatamente aqueles dias que passamos no Huayna Potosi… Esse texto é um relato de como foi a escalada de uma alta montanha.

HuaynaPotosi
Huayna Potosi, 6088 mts de altitude – Bolívia.

Estávamos em 2008. Eu estava procurando alguma aventura fora do país, algo aqui mesmo pela América do Sul, onde eu não iria gastar muito dinheiro com passagens aéreas ou teria que enfrentar a burocracia para tirar um visto qualquer. Depois de escolher o meu destino eu comecei a procurar informações na internet e montar meu roteiro. O objetivo era algo bem mais simples do que aquilo que fizemos no final. O que era para ser uma ida simples até Machu Picchu se tornou uma viagem de 40 dias por 4 países da América do Sul (se contarmos o trecho no Brasil). Cruzaríamos 2 desertos, escalaríamos duas montanhas acima do 5000 metros e faríamos a trilha mais complicada para chegar até a cidade sagrada dos Incas. Isso sem contar o downhill de bike na estrada mais perigosa do mundo – a Yungas, que liga La paz a Coroico, na Bolívia…

O grupo de pessoas foi se reunindo pela internet através de um fórum conhecido como Mochileiros.com, éramos umas vinte pessoas quase. Montamos todos os planos e partimos para nossa viagem. Esse planejamento e outros detalhes aconteceram em um ano. Em 2009 estávamos nos preparando para colocar o pé na estrada.

A primeira vez em uma alta montanha

Escalar em alta montanha é muito, mas muito, diferente mesmo de uma escalada normal em rocha ou de qualquer escalada/trilha feita em montanhas brasileiras. Os equipamentos, técnicas, roupas, ambiente, enfim, tudo era diferente daquilo que eu estava acostumado.

Sabíamos o que nós precisávamos levar de equipamentos e o que seria alugado lá: grampões, botas plásticas, piolet… Esses equipamentos que não usaríamos nunca aqui no Brasil seriam alugados lá na Bolívia. No nosso caso eles fizeram parte do material oferecido pela agência que nós contratamos para nos fornecer os guias.

Uma montanha tem em geral sempre mais de uma rota até o seu cume, no Huayna Potosi não é diferente, temos a rota Francesa e a Rota Normal. Por questões de habilidades técnicas e por ninguém do grupo ter experiência em alta montanha optamos pela rota normal – a mais simples, que não exigia grande técnica para a escalada. Vale lembrar que não fomos até lá com as 20 pessoas do nosso grupo. Nesse ponto da viagem o grupo estava separado em dois, parte fazendo o Chacaltaya (5400m) e apenas 3 de nós (incluindo eu) estavam no Huayna Potosi. Muitos já haviam retornado para suas casas ou estavam no caminho de volta.

Estávamos em La Paz, capital da Bolívia. No mesmo dia em que fechamos o downhill de bike pela Yungas fomos até a agência do Dr. Hugo Bérrios, montanhista e médico especializado em traumas de montanha e altitude, para nos informar sobre a montanha e bater um papo sobre os serviços, rotas, riscos, etc. Conversa interessante a que tivemos com ele, ele nos perguntou alguns detalhes médicos sobre cada um, principalmente se alguém sofria de problemas cardíacos, pulmonares e circulatórios – além de diabetes. Perguntou sobre nossa experiência em altitude, comentamos que já tínhamos tentado o vulcão Licancabur (5916m) no sul da Bolívia e que passamos pela trilha de Salkantay (4700m) rumo à Machu Picchu. Um detalhe curioso comentado pelo Dr. Hugo foi que em geral descendentes de japoneses não escalam bem em altitude, eles passam mal e acabam até morrendo pelos efeitos do chamado mal de montanha e suas complicações. Não sabia desse fato, mas realmente são poucos os nomes de montanhistas japoneses que aparecem em altas montanhas…

Fechamos nossa escalada, no mesmo dia fomos até o depósito da agência para experimentarmos as botas plásticas para neve e ver se alguém estava precisando de alguma roupa emprestada. Material acertado voltamos para o Hostel para ajustar as mochilas de ataque e preparar os equipamentos. Daqui a um dia teremos um novo desafio pela frente.

Rumo ao Huayna Potosi

Acordamos cedo e fomos tomar nosso café da manhã, depois de algumas horas teríamos que nos encontrar com o pessoal da agência e conhecer o novo integrante do nosso grupo, um suíço que falava trocentos idiomas (menos português) e que se chamava “Emanuel”, nada parecido com o que eu esperava para um nome suíço.

Chegamos na agência, encontramos o pessoal lá nos esperando e já fomos para a van que nos levaria até o refúgio do Huyana Potosi. Entramos na van, subimos até a parte alta de La Paz e paramos numa venda para comprar uns chocolates e mais água para quem quisesse. Comprei uns chocolates e corri para bater umas fotos, estávamos na frente do Illimani e com o Chacaltaya e o Huayna Potosi ao nosso lado…

chacaltaya-huayna
Na esquerda, mais ao fundo o Huayna Potosi, na direita o Chacaltaya

Hora de recuperar o fôlego depois de tanto babar na paisagem e voltar para van. Na verdade eu ainda iria reclamar muito sobre fôlego, só que eu ainda não sabia o quanto…

A van nos levou até o refúgio Huayna Potosi, onde iríamos passar o restinho da manhã, almoçar, descansar um pouco e fazer um treino básico de escalada no gelo na parte da tarde, no Glaciar aos pés da montanha.

Nos instalamos em um quartinho com duas camas beliches e descemos para o almoço e para conhecer melhor o local. Na parede da sala do refúgio encontramos uma camisa com a data de um mês atrás e a assinatura do Niclevickz, era uma camisa que marcava a escalada dele e de outros montanhistas até o Huayna Potosi como parte do treinamento para o Everest em 2010.

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Waldemar Niclevicz e cia, por um pouco mais que um mês não encontramos ele lá no abrigo

Almoço muito bem servido, aliás o serviço do refúgio é bem legal. Descansamos por algumas horas e partimos para uma caminhada até o Glaciar para aprendermos como usar corretamente os grampões e os piolets. Uma instrução rápida de técnicas de descida e subida, e depois uma parte prática com trechos de uns 45 graus ou mais de inclinação. Pra finalizar um top rope de uns 20 metros.

Muito interessante o que aprendemos ali. Não tinha idéia das técnicas usadas para subir ou descer com os grampões nos pés. Realmente a escalada em neve/gelo é algo fascinante.

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Top Rope no glaciar do Huayna Potosi, aprendendo a lidar com o piolet e os grampões

Terminada a nossa aulinha voltamos para o refúgio para batermos papo com os guias e com o resto do pessoal e nos preparamos para a tarde do dia seguinte, quando sairíamos depois de almoço para atingir os 5300 metros do refúgio 2, que no nosso caso foi um ponto curioso. Não ficamos no refúgio oficial por causa de um grupo de adolescentes ingleses que estavam escalando algumas montanhas por lá – passeio de férias da escola! Daqui a pouco falo sobre isso.

Saindo para o segundo refúgio

Nessa altura do jogo eu já sabia que os meus problemas com altitude começam depois dos 5 mil metros. Chego numa boa nos 5000 ou 5400 metros, mas depois disso a coisa começa a ficar complicada e realmente exaustiva, cada passo se torna um esforço enorme. Essa lição eu aprendi no Licancabur.

Por isso eu sabia que quando eu saísse do segundo refúgio a coisa ia se complicar. Partimos algum tempo depois do almoço, cada um carregava a sua mochila, nada de carregadores aqui. Estávamos levando água, roupas extras, sacos de dormir e os equipamentos pessoais de cada um, entre outras pequenas coisas. A subida foi bem puxada, o ar começou a faltar a partir de um determinado ponto e a nossa marcha deu uma reduzida leve no ritmo. Sofremos mas chegamos no que seria o nosso segundo refúgio – um simples depósito no meio da montanha pouco acima da Casa de Pedra e abaixo alguns metros do refúgio oficial, que estava lotado com os garotos ingleses – que aliás, tinham seu próprio guia de montanha e uma enfermeira na equipe deles – país de primeiro mundo é outra coisa!

Brincadeiras a parte, nos instalamos no “refúgio simples”. Preparamos o fogareiro e um dos guias do refúgio acima trouxe o querosene. Os nossos guias prepararam alguma coisa para comermos e enquanto isso batíamos um papo do lado de fora. Deveria ser umas 16:00 horas. Jantamos no meio da tarde e arrumamos as coisas, o plano era partir de madrugada, por volta das 02:00 da manhã até o cume. As 17:00 de uma sexta-feira estávamos dormindo, como se fosse noite.

Sacos de dormir para graus negativos, anorak, calça impermeável para alta montanha, fleece, underwear, gorro, duas luvas, duas meias… Isso era o nosso pijaminha. Pra ficar mais legal ainda a portinha do abrigo caiu durante a noite e podemos aproveitar para curtir um ventinho da montanha. Ahhh, essa vida de montanhista! Coisa fina!

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Refúgio 2, nosso hotel “sem estrelas”

Hora de encarar o ataque ao cume!

Uma hora da manhã o nosso guia nos acorda, hora do café. Pra começar um chá de folhas de coca, pra combater os males da altitude, mesmo que ninguém estivesse reclamando de nada. Depois uns comes e bebes e lá vamos nós lá pra fora, um frio de rachar! Ir ao banheiro com um ventinho extra, nessa altitude e com essa temperatura é uma coisa maravilhosa…

Na encosta branca vários pontinhos de luz serpenteiam montanha acima. Muitas pessoas subindo naquela madrugada gelada. Grupos grandes, duplas e até ataques solo. Nossa subida começou em um misto de rocha e gelo onde não se usa os grampos nas botas. Aquelas botas de alta montanha sem grampos são as piores coisas do mundo, primeiro por que elas não são confiáveis do ponto de vista da aderência e segundo por que elas não dobram, fazendo você marchar montanha acima…

Subo xingando as botas e as pedras, até que finalmente o guia nos pede pra colocar os grampões e prepara o encordamento das duas equipes de 3 pessoas cada. Vamos subindo, calados.

Agora começa a guerra interna entre você e a montanha. Cada passo significava mais esforço e menos ar, a luz da lanterna de cabeça não iluminava grandes distâncias, então era interessante ver como passamos do lado de grandes encostas de neve sem mesmo notar que estávamos ao lado de um abismo. As temidas gretas no gelo só apareceram uma vez, mas posso dizer que assustam. A que pulamos deveria ter uns 80cm de largura ou um metro talvez, nada de demais, apenas não conseguíamos ver o fundo da fenda… Nossas cordadas foram passando, pessoa por pessoa. Se alguém errasse o salto era responsabilidade dos demais impedir que a pessoa caísse e levasse com ela os outros.

Um determinado momento eu comecei a alternar os modos de caminhada para poupar alguns músculos das pernas e não fatigar demais outros. Passado um tempo já estavam todos eles bem fatigados! Parei a minha cordada, eu precisava respirar. Não sei neem quanto tempo ficamos parados, mas a segunda cordada que vinha atrás nos passou e eu não notei. Alguns metros na frente eu simplesmente desisti, estávamos a 388 metros do cume – 5700 metros de altitude. Avisei ao guia para me deixar esperando e levar o Emanuel para se juntar ao resto do grupo. Passado algum tempo e depois de conversar com trocentas pessoas que passaram avisando que eu estava bem, apenas esperando para retornar, avisto um de nossos guias com mais dois membros da equipe. Desistiram pouco mais acima por causa do frio intenso. Agora restava um dos guias e apenas um dos nossos amigos na montanha – ironicamente, aquele que tinha menos experiência. Descemos até o refúgio 2 novamente e dormimos por uma hora.

Acordamos preparamos as coisas e partimos para descer até a base da montanha. O sono valeu de pouco, eu ainda estava exausto. Desci cambaleando e xingando o mundo! Mas feliz da vida pela experiência. Na metade do caminho avisei pro guia que ele podia seguir com os outros que eu iria manter o contato visual e que já conhecia a trilha de descida – já era de manhã cedo, o sol brilhava na montanha.

Eles continuaram descendo e depois de algum tempo eu estava sozinho lá. Gosto dessa sensação, aqui a coisa fica pessoal. Eu descia no meu ritmo, sem forçar nada e sem dar chances para erros. Muito, mas muito cansado mesmo. Nada que eu tinha feito antes se comparava com aquilo que eu estava sentindo. Não sentia dor, apenas cansaço. O mais profundo deles.

O refúgio da base, ao lado da represa ia cada vez ficando mais perto. Parei para descansar antes de entrar na passagem da represa. Eu apenas respirava, qualquer outra coisa era involuntária, chegar no refúgio, jogar a mochila no chão e me livrar das botas era o que eu mais queria. Levantei, olhei pra passagem de concreto sobre o muro da represa e segurei bem o piolet. Verifiquei os grampões presos do lado de fora da mochila e o saco de dormir que estava um pouco mal ajustado e poderia soltar da mochila durante a passagem. Tudo que eu menos queria agora era ter que descer a parede da represa para resgatar algum equipamento. Cansaço absurdo e atenção redobrada.

Atravessei a passagem e parei novamente na outra ponta para descansar – míseros 100 metros de distância. Agora faltava apenas subir uma pequena encosta de pedra e estaria na porta do refúgio. O tempo de distância entre eu e os outros que desceram era de uns 10 minutos. Cheguei morto na entrada da casa. Larguei os equipamentos, separei o que não era meu para ser devolvido e apenas relaxei. Feliz… Feliz por ter chegado bem e pela experiência nova.

Não existem registros dessa etapa inteira da escalada, o cansaço simplesmente não me fez lembrar da câmera que passou o tempo inteiro em um dos bolsos dos casacos de fleece que eu usava por baixo do anorak…

A cabeça agora estava no Rafael, aquele integrante da nossa equipe que ficou na montanha. Nós três, eu, o Fernando e o Emanuel estávamos imaginando se ele teria ou não conseguido atingir o cume. Algum tempo depois o nosso guia recebe uma chamada no rádio. Estavam descendo.

Nosso amigo que nunca pisou em uma montanha de sequer 2000 metros estava voltando, direto dos 6088 metros do cume do Huayna Potosi para o acampamento base. Vitória! Conseguimos pelo menos colocar alguém de nós lá em cima. Um esporte de brigas individuais e que gera tamanha união, assim é o montanhismo…

Ele chegou morto, com cara de zumbi, mas feliz e entusiasmado com o feito. Pouco tempo depois estaríamos em La Paz, ajudando ele a comprar equipamentos de escalada para usar aqui no Brasil…

Tudo isso com direito a ter uma camisa assinada e pendurada na parede do refúgio base do Huayna Potosi, ao lado daquela assinada pelo mestre Waldemar Niclevicz.

Mais alguns minutos e nosso carro chega para nos levar de volta até La Paz. A montanha deixou saudades, momentos que ficaram lá nas encostas cobertas por neve e que nos dão um gostinho de um dia querer voltar e respirar novamente aquele ar gelado e puro. Quem sabe um dia não nos encontramos novamente. Até lá, Huayna Potosi.

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Da esquerda para direita: Rafael Pierina, Emanuel, Fernando Maia e eu, Mario Nery – 2009 – Huayna Potosi – Bolívia


Artigo etiquetado em:
escaladaViagens e Aventuras

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Mario Nery

Mario Nery

Trekker, montanhista e mochileiro, pratica esportes outdoor desde 1990. Apaixonado por equipamentos, fotografia, cerveja e tecnologia. Formado em TI, atualmente trabalha na área mídias sociais/marketing digital. Siga o Trekking Brasil no Twitter: @trekking


3 comentários

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  1. Cleverson Budel
    Cleverson Budel 4 Maio, 2010, 21:14

    Olá Mario. Como sugestão, se é que já não leu, ler o livro ‘A Escalada’ de Anatoli Boukreev. Na minha opinião ele dá uma visão mais realista do acidente acontecido no Everest em 1996. Interessante tambem ler o livro do Valdemar Niclevicz (Everest -o diário de uma vitória) que escalou o Everest um ano antes juntamente com Anatoli.
    Parabéns pelo site … tem muita coisa legal.
    Abraço.

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  2. Erikson
    Erikson 7 setembro, 2011, 20:03

    Cara, gostei muito do seu relato. Passou um filme na minha cabeça com a sua história.

    Estou começando a planejar também uma viagem para Bolívia, Chile e Peru para o ano que vem.

    Parabéns pelo blog e obrigado pelos posts, têm me ajudado muito.

    Abraço!

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  3. Bruna Fávaro
    Bruna Fávaro 25 dezembro, 2011, 10:02

    Excelente texto, Mario. Muito humano. Parabéns.
    Estou indo pra Bolívia hoje à noite e minha intenção número 01 é subir o Huayna. Sinceramente, seu texto fez com que eu repensasse essa escolha e acabo de decidir que não devo tentar nesse momento, talvez em julho próximo. Assim subo no inverno, não tenho problemas com neve fofa e ainda dou uma melhorada na preparação física, que não tá das melhores, rs. Obrigada pelas dicas daqui, Mario! Seu site arrasa!

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