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O que eu aprendi mochilando?

O ano eu não lembro. A série da escola muito menos… Mas aquela foto alinhada no canto do livro e o pensamento de “um dia eu vou até lá” eu não esqueço. Mais de 20 anos depois eu estou sentado na cadeira do home office, bebendo uma xícara de café ao som da trilha sonora do “Na Natureza Selvagem”, sem a foto do velho livro, mas com a imagem da luz sobre a cidade, seus caminhos, suas pedras, suas histórias – todas vivas, só que agora em forma de memórias, daquele tipo que só tem quem viveu o lugar.

Duas décadas depois – ou mais quem sabe – o garoto que olhava a foto de Machu Picchu no livro de história teve a chance de pôr uma mochila nas costas e transformar o “um dia eu vou lá” em “me espera Machu Picchu, nos encontramos em breve”.

Machu Picchu Peru

Quando as páginas do livro de história se tornaram realidade…

Essa e outras viagens com a mochila nas costas me ensinaram muita coisa, muita mesmo. Mais do que histórias, culturas, rituais de velhas civilizações, idiomas ou gostos diferentes. Mochilar me ensinou a ser uma pessoa melhor. Mas como?

Mochilar ensinou o menino tímido – que ainda existe na verdade – a ser capaz de perguntar coisas a um estranho na rua ou a conversar com um velhinho no ônibus como se ele fosse um velho amigo. Me ensinou que a timidez iria somente me impedir de conhecer ainda mais coisas.

Mochilar me ensinou a ser mais organizado, não na minha casa ainda, mas na hora de planejar a viagem, escolher o roteiro, calcular os custos, pesquisar informações ou até mesmo quando paro a noite em algum lugar para escrever o registro daquele dia no “diário de bordo da viagem”.

Mochilar me ensinou alguma coisinha de espanhol e melhorou muito meu inglês. Mas também me fez ter momentos divertidos enquanto eu ensinava uma ou outra palavra para alguém por aí. Como daquela vez que eu ensinei o guia de Salkantay a falar “fudiiiiiiiiido” – e depois mais a frente no caminho ele olhou pra minha cara de cansado e disse: você tá fudiiiiiiiido, né? Ri o quanto a falta de ar me permitia rir aos 4600m de altitude do Salkantay.

Mochilar me ensinou a cuidar mais das pessoas que estão por perto, me mostrou que ajudar é bom. Ser ajudado também.

Mochilar me mostrou que o mundo pode ser muito diferente daquele que estamos acostumados, pode ser mais simples e vir junto com um sorriso enorme quando uma criança pede para ver a foto que você tirou dela brincando.

Mochilar me ensinou a ser mais esperto com possíveis perigos pelas cidades, mas também me mostrou que existem muitas pessoas boas no mundo – a enorme maioria delas, felizmente!

Mochilar me ensinou que eventualmente é melhor apenas ouvir, mas não responder. Nem sempre todos estão prontos para ouvir as respostas, nem sempre temos as respostas, então tem horas em que é melhor balançar a cabeça e olhar a paisagem. Bem como tem horas em que um olhar sincero e um “vamos lá que você consegue” resolvem tudo no mundo – pelo menos naquele momento.

Mochilar me mostrou que eu posso passar muito mais que um mês com o que cabe dentro da minha mochila, que eu posso ir muito além quando meus pés querem e que sempre existe espaço na cabeça para aprender mais alguma novidade.

Mercado Municiapl Bolívia

Um dos muitos mercados municipais da Bolívia. Pausa pra um chocolate quente de manhã

Mochilar reforçou uma coisa que a montanha já tinha me mostrado antes: como é bom viver sem internet, celular ou TV por algum tempo!

Mochilar me mostrou que somos todos pequenos frente as grandes coisas da vida, grandes montanhas, rios, cachoeiras, florestas…

Mochilar me mostrou que é bom ouvir as histórias de quem vive nos lugares por onde passei, muitas delas não estão nos livros da escola.

Mochilar é uma ótima forma para aprender a usar diariamente pequenas e poderosas palavras que muitos de nós esquecemos: por favor, com licença, obrigado, bom dia, me desculpe, olá…

O que eu aprendi mochilando? Bem isso que você leu é um pequeno conjunto de coisas que eu aprendi enquanto viajava longe dos pacotes turísticos, afinal de contas qual é a graça de conhecer uma cidade em cima de um ônibus de turismo, com paradas nos mesmos lugares de sempre?

Arica Chile

A linda cidade de Arica no norte do Chile, foto de um dos nossos passeios a pé pela cidade.


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Mario Nery

Mario Nery

Trekker, montanhista e mochileiro, pratica esportes outdoor desde 1990. Apaixonado por equipamentos, fotografia, cerveja e tecnologia. Formado em TI, atualmente trabalha na área mídias sociais/marketing digital. Siga o Trekking Brasil no Twitter: @trekking


4 comentários

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  1. Deco
    Deco 29 Maio, 2014, 01:45

    Parabéns Mario …belo testo … Lendo ele vc se encontra através das palavras… A final a mochila pode ser a nossa Casa também !!!

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  2. Sueli Dettogni Piól
    Sueli Dettogni Piól 17 Fevereiro, 2015, 22:45

    Show de bola o artigo! Isso me encheu de vontade e eu também quero: “me espera Machu Picchu, nos encontramos em breve”. :)

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  3. Lucas Lopes
    Lucas Lopes 10 Abril, 2015, 13:04

    Sensacional, li o artigo com o pensamento de que eu poderia ter sido o autor haha

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