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Trilha em Guaramiranga – Ceará

Texto e fotos enviados por: Karol Oliveira

NOTA DO TB: Recebemos este texto e resolvemos publica-lo para resumir em um relato tudo que você NÃO deve fazer ao pegar uma trilha. Lanternas, anorak, calçados apropriados, conhecimento do caminho e um mapa com bússola ou GPS fizeram muita falta para o pessoal que encarou esse perrengue. Além disso grupos grandes demais tendem a maximizar a possibilidade de acidentes ou de pessoas perdidas.

Era carnaval de 2011, na Serra de Baturité em Guaramiranga-CE. Todo carnaval eu e mais alguns amigos subimos à Serra para acampar e fugir um pouco do agito do carnaval no litoral cearense. Uma certa manhã decidimos fazer uma trilha, porém apenas duas amigas sabiam do percurso, mas fomos mesmo assim. Porém, um erro de iniciante, saímos para fazer a trilha depois do almoço, não pelo almoço, mas pelo tempo. Mal sabíamos os obstáculos que iríamos passar.

O encontro da estrada para cidade

Pegamos água, alguma comida rápida, pois achávamos nós que iríamos voltar logo. Para a minha infelicidade, meu tênis estava molhado, porém não quis perder a aventura, e decidi ir de chinelo mesmo assim. Ao pegar o caminho da trilha, o primeiro desafio foi atravessar uma parte da trilha passava por um terreno particular – onde o proprietário não nos deixou passar pelo seu terreno, mas indicou um caminho alternativo. Esse caminho alternativo era tão íngreme que metade das pessoas desistiram logo ali. Havia chovido na noite anterior, tudo estava molhado e escorregadio.

Ladeira de muita lama

Algumas pessoas começaram à passar mal e voltaram. Algumas pessoas que sobraram firmes na ideia, somavam em umas vinte pessoas no máximo. Logo após muito subir e nos depararmos com ladeiras muito altas, naquele sobe e desce, nos encontramos com um pequeno grupo que havia saído mais cedo para a mesma cachoeira, porém eles estavam muito cansados e nós conseguimos alcançá-los. Somávamos agora em umas trinta pessoas, e mal sabíamos que eles seriam nossa salvação nesse dia. Já estávamos há três horas na trilha e nada de cachoeira, apenas muito mato e subidas até que chegamos à um ponto que o caminho estava obstruído, e a única solução para passar seria se segurar nas raízes das árvores.

Próximo à cachoeira

Para eu que gosto de aventura, até gostei, porém a animação e a alegria em busca de um banho refrescante de cachoeira estava perdendo espaço para a ansiedade e o cansaço. Já se podia ouvir algumas pessoas reclamando de dores nos pés, muitos escorregavam frequentemente e o perigo estava se tornando cada vez mais constante.

Até que meu chinelo arrebenta, conclusão: terei que continuar a trilha de pés descalços. Nessa hora eu comecei a sentir literalmente o frio e os espinhos, mas ou eu continuava andando ou ficava na trilha. Eu não tinha opção. Já estava chegando as quatro da tarde quando conseguimos finalmente chegar na cachoeira, mas a alegria durou pouco.

Cachoeira

Percebemos que demoramos quatro horas para chegar na cachoeira, se voltássemos pelo mesmo caminho iríamos chegar por volta das oito da noite, poucas pessoas haviam levado lanternas, além de comida e roupas de frio – estávamos com poucas roupas e molhadas.

O grupo pequeno que encontramos saíram na frente em busca de uma saída, e logo observamos que a única saída era ir pra próxima cidade a pé pela mata. Porém, eu não tinha muita certeza se alguém sabia como chegar, mas não tínhamos opção, estava escurecendo e não nos sobrava muito tempo para decidir. De Guaramiranga para Pacoti (cidade vizinha) eram 7 km de distância. Quando decidimos ir embora, vimos que teríamos que escalar uma pedra da cachoeira para poder entrar na trilha para a outra cidade.

Não tínhamos cordas, tivemos que subir pelas raízes das árvores novamente. Em um momento eu resolvi olhar pra trás, toda minha vida estava assegurada por aquele único cipó, por onde todas as pessoas estavam passando, se caso ele se partisse, eu despencaria pelas pedras da cachoeira e a morte era certa. Mas graças o cipó não quebrou e conseguimos passar pela pedra. Pegamos a trilha para a cidade, meus pés já muito machucados da mata, a fome já estava grande, o cansaço e nessa hora até mesmo a ansiedade deram lugar para o desespero de algumas pessoas. Andava e conseguia ouvir pessoas chorando, dizendo que amava os pais, os amigos, que queriam voltar pra casa. E todo aquele choro me deixava mais incomodada. Antes de conseguirmos pegar uma estrada de terra para a cidade, tivemos um outro imprevisto. Um espaço da trilha só havia o espaço de um pé e o desfiladeiro ao lado, um passo em falso e era queda na certa, passávamos um segurando o braço do outro lado, para que nem o corpo pendesse cair no desfiladeiro. Conseguimos passar, já estávamos vendo a estrada de terra firme que daria na próxima cidade, quase umas seis da noite. O grupo que nos encontramos caminharam rápido e foram na frente, porém uma certa hora encontramos uma mulher que pertencia ao grupo da frente perdida na mata, quando a encontramos, ela estava muito apavorada, já havia ligado para a mãe dela em Fortaleza e já havia até pedido para os bombeiros resgatarem ela. Como nós já estávamos na estrada de terra, alguns celulares já haviam sinal. Passado o susto, fomos caminhando para a cidade.

Agora o medo era nosso companheiro. Não sabíamos o que podíamos esperar sair do mato alto do caminho. Chegamos na cidade as sete da noite, em pleno carnaval de mela mela. E nós todos sujos de terra, lama, molhados, com fome e cansados. Procuramos o lugar de ônibus ou van para voltarmos para nossa cidade, e adivinhem? Não haviam mais transportes para a cidade vizinha naquele dia, somente no outro dia. Nessa hora o caos havia se instalado. Até que alguém viu um carro de transporte de areia parado próximo de nós. Após muita insistência o motorista concordou em fretar o carro para nos levar de volta, com a contribuição de uma certa grana.

No caminhão de volta para Guaramiranga

Quem vai para a trilha e leva muito dinheiro ou sequer dinheiro? Após muito sufoco, conseguimos juntar todos unidos as moedas e conseguimos pagar o valor estipulado.
No caminho de volta, a alegria de estar voltando e em segurança era tanta, que até conseguimos relaxar. Sentindo o vento frio conseguimos rir de toda a situação.

O nome da cachoeira? Cachoeira do Perigo. Por que será?

Texto e fotos enviados por: Karol Oliveira


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Elque Silva

Elque Silva

Apaixonada pelas coisas boas da vida: montanhas, trilhas, aventuras, viagens e amigos. Trabalha na área de Administração. Me siga no Twitter: @elquetrekking


1 comentário

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  1. Ricardo Scheicher
    Ricardo Scheicher 17 setembro, 2014, 13:29

    Mas isso é uma coisa cultural também. Até hoje, quando chego em algum lugar para acampar, percorrer uma trilha ou fazer um trekking, as pessoas acham bobagem levar equipamentos. A maioria nem um canivete e uma lanterna levam. Água, normalmente uma garrafa de 500ml, o que não dá para nada. Já cansei de ver gente em mata fechada sem bota e perneira.

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